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Com averso externa ao risco, dlar fecha cotado a R$ 5,15

10/05/2022

Moeda norte-americana avançou 1,60% e encerrou no maior valor desde 15 de março

O dólar marcou seu terceiro pregão seguido de valorização na sessão desta segunda-feira e fechou no maior nível desde meados de março, insuflado pela onda de aversão ao risco que toma conta dos mercados mundo afora. Investidores abandonaram bolsas e correram para se abrigar na moeda norte-americana diante da possibilidade de que a economia global rume para a estagflação, em meio à expectativa de aperto monetário mais intenso nos Estados Unidos, ao prolongamento da guerra na Ucrânia e a sinais de desaceleração da economia da China, cujas exportações cresceram em abril no ritmo mais baixo em quase dois anos.

Com o quadro externo adverso, o dólar já abriu em alta superior a 1% e operou em terreno positivo ao longo de todo pregão. Entre mínima a R$ 5,1020, no início da tarde, e máxima a R$ 5,1605, o dólar à vista encerrou com alta de 1,60%, a R$ 5,1565 - maior valor de fechamento desde 15 de março (R$ 5,1591).

Com o avanço desta segunda-feira, a moeda já acumula valorização de 4,33% em maio, maior do que toda alta registrada em abril (+3,81%). A queda da divisa em 2022, que chegou a ser de 17%, agora é de 7,52%.

No exterior, o dólar subiu em bloco na comparação com divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com ganhos superiores a 1% ao peso chileno, ao rand sul-africano e ao real. Afora uma pequena baixa à tarde, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - trabalhou em alta ao longo de toda a sessão, com máxima aos 104,187 pontos. Quando o mercado local fechou, era negociado ao 103,697 pontos - maior patamar em 20 anos.

Diante das preocupações com o crescimento global, o dia foi negativo para commodities. O minério de ferro caiu 6,18% no porto de Qingdao, na China, que persiste na política de adoção de lockdowns para combater a covid-19. As cotações do petróleo recuaram mais de 5%, com o tipo Brent, referência para a Petrobras, fechando em baixa de 5,74%, a US$ 105,94 o barril. À tarde, houve noticias de que a União Europeia decidiu abandonar planos de proibir navios do bloco de transportar óleo russo. Commodities agrícolas como milho e soja também recuaram.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristino Oliveira, vê o mercado realinhando preços à perspectiva de ajuste da política monetária americana. A economia global, diz Oliveira, tem sido impactada por choques cujos desdobramentos são difíceis de estimar. "Os recentes lockdowns na China e a percepção de que o conflito militar entre Rússia e Ucrânia poderá se estender por mais tempo deterioram o cenário de crescimento e inflacionário para os próximos meses - elevando o risco de um processo de estagflação global", afirma, em relatório, Oliveira, para quem o tombo do real em maio reflete recuo dos preços das commodities, além do fluxo negativo de recursos.

À espera da divulgação do índice de inflação ao consumidor dos EUA (CPI) na quarta-feira, 11, investidores monitoram discursos de dirigentes do Banco Central americano. Pela tarde, o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, disse não esperar uma alta de 75 pontos-base da taxa básica americana em junho. O dirigente espera "dois ou três" novos aumentos de 50 pontos-base nos juros, que já representam uma postura "agressiva" do Fed para combater a inflação.

Os estrategistas do Citi informaram, em relatório, o encerramento da aposta em queda do dólar frente ao real, adotada após a decisão de política monetária do Federal Reserve na quarta-feira passada, seguida de declaração do presidente da instituição, Jerome Powell, descartando a possibilidade de uma alta de 0,75 pontos-base. "A reação amena do dólar ao Fomc (comitê de política monetária do Fed) teve vida mais curta do que imaginávamos", afirmam os estrategistas do Citi, relatando que fecharam a operação nesta segunda com perda de 4,22%.

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, observa que "o vetor externo" continua sendo preponderante para a perda de força do real, mas que a moeda tem sofrido também por causa da crise institucional interna, da saída de capital externo da B3 e da forte elevação da posição comprada em derivativos cambiais por parte dos estrangeiros. "Persiste a elevada volatilidade da moeda dado o cenário externo adverso, porém o fluxo comercial no curto prazo tende a fazer o contraponto, ainda que parcialmente", diz a economista da Armor, em relatório.

Para a economista Bruna Centeno, especialista em renda fixa da Blue3, com um arrefecimento da aversão ao risco e diminuição da volatilidade da moeda, a taxa de câmbio pode voltar ao nível de R$ 5,00, na esteira do aumento do apetite pelo carry trade (operações que exploram diferencial de juros entre países). "O Copom deixou a porta aberta para uma alta de 0,5 da taxa Selic na próxima reunião, para 13,25%. Ainda vamos ver estrangeiros atraídos pelos nossos juros altos", diz Centeno.

Taxas de juros

Os juros futuros fechara o dia em queda, alinhado ao movimento dos Treasuries, mas o alívio em torno de 6% nos preços do petróleo também ajudou. Após passarem a manhã em alta, as taxas locais viraram para baixo, na medida em que os rendimentos longos na curva americana também passaram a cair e que o petróleo ampliou as perdas.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou a sessão regular em 13,29%, de 13,344% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2024 caiu de 13,056% para 12,955%. A do DI para janeiro de 2025 fechou em 12,42%, de 12,565%, e a do DI para janeiro de 2027 terminou em 12,295%, de 12,39%.

Mesmo com o dólar fechando em alta, a R$ 5,1565, os juros caíram, com o mercado de olho no exterior, principalmente nos sinais do Federal Reserve. "O mercado de juros local replica o que acontece nas curvas dos mercados globais", resume Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management. A parte da manhã foi tensa para os negócios, com o yield da T-Note de dez anos chegando a bater em 3,20%, refletindo a percepção de uma atuação mais dura do banco central americano, apesar do discurso do presidente da instituição, Jerome Powell, na semana passada descartando uma possível aceleração no ritmo de aperto monetário.

À tarde, o cenário mudou e a T-Note de dez anos passou a cair fortemente. No fechamento da sessão regular do DI, marcava 3,06%, mas depois cedeu ainda mais, para 3,03% por volta das 17h. No começo da tarde, o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, afirmou que uma alta de 75 pontos base nos juros não está em seu cenário, e fez indicações de que a inflação está desacelerando nos Estados Unidos.

Já o petróleo devolveu nesta segunda-feira, num só dia, a alta de 5% apurada na última semana, refletindo temores sobre a demanda em meio à discussão na União Europeia sobre embargo ao petróleo russo e sinais negativos da economia da China. A questão é que, em meio à guerra, o cenário tem mudado rapidamente. "Em se tratando de petróleo, a palavra que define é volatilidade", comentou Olivares.

Desse modo, apesar do comportamento da commodity, o mercado mantém a percepção de que a Petrobras terá de elevar o preço da gasolina, até porque o câmbio está se depreciando. A empresa anunciou aumento de 8,87% no diesel, mas que não chegou a afetar a curva, uma vez que o que pesa diretamente no IPCA é a gasolina. A defasagem do diesel ante os preços internacionais era maior e, por isso, era esperado que fosse priorizada. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem do insumo agora caiu para 11% na comparação com os preços praticados no Golfo do México. Já a gasolina, que não teve o preço alterado, tem defasagem média de 19%.

Bolsa

A conjuntura de aversão global a risco que vem se desenhando desde a semana passada, após a decisão de juros nos EUA, somada a um dia negativo para as commodities globalmente, na esteira do receio de uma desaceleração na China, culminaram em mais um dia negativo para a bolsa brasileira. O Ibovespa cedeu ao nível dos 103 mil pontos, no menor patamar desde 10 de janeiro, e apagou os ganhos do índice no ano.

O Ibovespa terminou o dia em queda de 1,79%, aos 103.250,02 pontos, mais próximo da mínima (102.768) do que da máxima (105.109) registrada nesta segunda-feira. O desempenho ainda foi melhor do que o dos índices americanos, com Nasdaq recuando mais de 4%. No mês e no ano, a queda é de 4,29% e 1,50%.

Os índices aqui e lá fora respondem a um conjunto de fatores que retiram do investidor o apetite por correr riscos. O investidor monitora os dados chineses, em busca de sinais do tamanho do impacto dos lockdowns na atividade do país e, consequentemente, na cadeia de suprimentos global. Apesar de acima do esperado, os dados da balança comercial chinesa divulgados nesta segunda-feira não foram bem interpretados por aqui ao apresentarem uma queda contundente nas importações de minério de ferro.

Assim, os papéis ligados às commodities metálicas sofreram, com destaque para a Vale (-4,10%). A commodity teve queda de 6,18% no porto de Qingdao, na China. O petróleo teve tombo parecido, com o barril do Brent desabando 5,74%, negociado a US$ 105,94. Com isso, as ações de petroleiras figuraram entre as piores quedas do índice nesta segunda. PetroRio e 3R Petroleum despencaram 8,60% e 8,70%, respectivamente. E Petrobras caiu 2,72% (PN) e 4,01% (ON).

Além disso, o investidor monitora os sinais da política monetária americana. Mesmo após o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, ter dito que uma alta ainda mais agressiva dos juros, de 75 pontos-base, estaria fora da mesa, sinalizações dos diretores da instituição parecem deixar a porta mais entreaberta do que o que foi sinalizado na semana passada.

Mais cedo, Raphael Bostic, do Fed de Atlanta, afirmou que não espera uma alta de 75 pontos-base nos juros, embora tenha ponderado que prefere "não descartar" qualquer opção. Essa possibilidade de alta mais agressiva de juros não apenas ameaça o já conturbado cenário de crescimento global, como também diminui o custo de oportunidade de se investir em ativos de risco. Em maior grau, retira interesse em países emergentes.

"É uma combinação de coisas (que derrubam a bolsa nesta segunda). Nos EUA você tem uma continuidade do movimento de realização das bolsas. Aversão a risco com yield das Treasuries atingindo novos picos e isso impactando setores como tecnologia. Aqui, na bolsa local, soma-se o efeito de commodities. Você tem um sentimento crescente de impacto dos lockdowns na China e isso está afetando negativamente o preço do petróleo e do minério", pontua o gestor de renda variável da Western Asset, Naio Ino.

O diretor de Alocação e Distribuição da InvestSmart XP, André Meirelles, lembra que um movimento tão negativo paras as commodities é especialmente ruim para a bolsa brasileira. "A redução no preço das commodities tende a influenciar negativamente o índice, visto que mais de 30% de sua composição está atrelada ao setor", disse.

Especialista em renda variável da Blue3, Dennis Esteves lembra que os efeitos da guerra da Ucrânia não foram esquecidos pelo mercado e adicionam mais uma camada de incerteza ao cenário. "Hoje o movimento é de digestão, por parte do mercado, do aumento de juros nos EUA na semana passada. Ele reprecifica os mercados globais. Mas temos também o desaquecimento da economia por parte da China e ainda a questão da guerra pairando como um fantasma sobre o mercado. No Brasil, a gente sofre nessa linha de frente com reprecificação das commodities", disse.

Por outro lado, o setor financeiro tentava - ainda que com pouco fôlego - impedir uma queda maior, ancorado em bons desempenhos corporativos dos últimos dias. Bradesco subiu 1,49% (PN) e Santander tinha alta de 0,91%. BTG, por sua vez, figurou entre os maiores ganhos do índice nesta segunda e subiu 3,61%. Apesar do resultado em linha com o esperado, no entanto, os papéis do Itaú Unibanco tiveram dia no vermelho e caíram 1,43%.

Com informações: correiodopovo.com.br

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