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Jovem do RS concorre em premiação internacional com projeto para incentivar adoção tardia

12/06/2019

A estudante de Porto Alegre Marcella Cesa Bertoluci, de 18 anos, está concorrendo a uma premiação internacional por um projeto que ela criou para incentivar a adoção tardia. Ela é a única brasileira entre os finalistas do concurso promovido pela Junior Achievement, uma ONG global de empreendedorismo jovem.

Conforme Marcella, pessoas de mais de 30 países se inscreveram na competição. Durante a seleção, a ONG escolheu apenas 10 participantes para a etapa final. Agora, a estudante está concorrendo com outros nove finalistas em uma votação online, que segue até sábado (15).

Os três mais votados participarão de um evento em Viena, na Áustria. O primeiro colocado irá ganhar como prêmio a produção de um vídeo profissional, onde poderá falar sobre o projeto, que será divulgado mundialmente.

"Essa competição está sendo uma maneira muito legal de dar visibilidade para a adoção tardia, que é o meu projeto. Para ser sincera, eu não estava esperando ser selecionada. Uma baita surpresa, muita gente do Brasil se inscreveu. Milhares de pessoas se inscreveram e eu fui aceita. Acho isso incrível", conta a jovem.

Chamado de Missão Diversão, a iniciativa criada por Marcella tem como objetivo realizar eventos que promovam o encontro de casais habilitados à adoção com crianças e jovens que aguardam a oportunidade de terem uma família.

"O projeto tem esse nome para que o foco não seja na adoção, e sim, criar um dia diferente para as crianças e casais. Dessa forma, conseguimos aproximá-los e sensibilizar os casais para a doação tardia", conta.

A primeira edição do evento de adoção foi realizada em junho de 2017. Desde lá, já ocorreram quatro edições, onde seis crianças foram adotadas, e mais uma adoção está em andamento.

Como nasceu o projeto

Aos 16 anos, quando Marcella estava no 2º ano do Ensino Médio no Colégio Farroupilha, a empresa Smile Flame, voltada para projetos sociais, foi até a escola e convidou os alunos a desenvolverem iniciativas que gerassem impacto de forma inovadora e positiva na sociedade. A adolescente se interessou pela proposta e, ao lembrar do trabalho voluntário que havia desenvolvido em lares e abrigos, teve a ideia de criar o projeto da adoção tardia.

“Participei do grupo de voluntariado do colégio, no qual tive contato com realidades distintas, incluindo crianças destituídas de suas famílias, e fui sensibilizada pela situação delas. Aí pensei neste projeto juntamente com outros colegas”, conta Marcella.

Não era obrigatório colocar os projetos em prática, mas a jovem fez questão. Para isso, ela entrou em contato com o Ministério Público e com o juiz Marcelo Mairon Rodrigues, que na época atuava na 2ª Vara da Infância e Juventude de Porto Alegre. Ela descobriu então que o Judiciário também tinha o interesse em dar visibilidade para o tema.

"A ideia da Marcella veio ao encontro do que o Judiciário planejava. Foi um período que o próprio Tribunal vinha desenvolvendo uma campanha no sentido de dar maior visibilidade para essas crianças e adolescentes, que muitas vezes por já terem mais de 10 anos, as vezes por serem um grupo numeroso de irmãos, nós tínhamos dificuldade de encontrar pessoas habilitadas para o perfil dessas crianças e adolescentes", diz o juiz em um vídeo gravado pelo Colégio Farroupilha.

“Eles acabaram abraçando a ideia. Os eventos só ocorrem por causa do juizado, que fazem os trâmites legais. Eu cuido da parte de inovação. Não é qualquer pessoa que pode participar desses eventos, são só para casais habilitados para adoção, que passaram por um acompanhamento", acrescenta Marcella.

Como o objetivo do projeto é abordar a adoção tardia, as crianças e adolescentes que participam das ações têm idades entre 8 e 17 anos.

Todas as ações acontecem no Colégio Farroupilha. O objetivo é que os eventos sejam dias divertidos para as crianças, que elas possam sair da rotina e brincar.

"A Marcella foi a protagonista desse projeto, ela buscou o Ministério Público e o ajuizado e nós cedemos o espaço e organização desses eventos. O importante é que as crianças soubessem que teriam uma tarde divertida, para não criar uma expectativa e depois ela não ser atingida. Sempre se teve esse cuidado em pensar nas brincadeiras, para que a tarde fosse diferente da tarde que elas passam", conta a diretora pedagógica do Colégio Farroupilha, Marícia Ferri.

Adoção: ato de amor

O casal Douglas Guimarães e Glademir Bastians sempre teve vontade de ter um filho. Em julho de 2016, eles entraram com o pedido de habilitação para adotar junto ao fórum. Em março de 2017, a habilitação foi concluída e, a partir daquele momento, o casal entrou em uma fila de espera.

A primeira chamada ocorreu alguns meses depois para que o casal adotasse um menino de 11 anos no município de Santo Cristo.

"A empolgação foi nas alturas, já estávamos sonhando com o momento, porém na hora em que o menino foi questionado sobre a possibilidade de conhecer dois pais homens ele recusou. Alguns dias depois, veio a resposta da comarca que ele não queria ter dois pais gays, que ele preferia uma família convencional. Para nós foi horrível, o mundo caiu pela dor da 'perda' gerada na expectativa de ter ele em nossa família", conta Douglas.

Uma situação parecida ocorreu meses depois com o casal. Então, eles ficaram sabendo do projeto Missão Divertida.

"Perguntaram se nós queríamos participar e conhecer um garoto de 8 anos que iria estar lá e sentir como seria para ele e para nós esse contato. Também nos foi falado que ele teria uma irmã de 7 anos, mas que o juiz havia autorizado a adoção separado, pois a menina não queria mais ser adotada, pois haviam sido devolvidos por outra família de uma adoção frustrada", relata Douglas.

Chegou o dia, e o casal estava com o coração acelerado para conhecer o menino. Aos poucos se aproximaram da criança, que também se chamava Douglas.

"Brincamos, corremos e chegou a hora do lanche. Momento indicado para os casais se aproximarem e conhecerem mais as crianças. Sentamos em uma mesa e logo Douglas sentou conosco. Em um dado momento, ele perguntou o que éramos. Irmãos? Tios? Pai e filho? Primos? E respondi: 'Nós somos casados'. Ele ficou com um olhar querendo dizer 'eu já sabia' e disse 'eu não tenho problemas com homens assim' e logo perguntou se tínhamos filhos. Com a nossa resposta, ele já disparou: 'E por que vocês não me adotam?'", lembra o pai Douglas.

"Naquele segundo, veio a confirmação que faltava em nosso coração que aquele pequeno seria nosso. A missão seguiu cheia de emoção até o final", acrescenta.
O casal pediu para adotar Douglas e conseguiu a guarda definitiva no ano passado. Na época, o menino tinha 9 anos. O casal prometeu que levaria ele para ver a irmã, para manterem o vínculo. Mas, aos poucos, o casal conquistou o coração da pequena Thaila, que tinha 8 anos.

"Levaríamos ele para visitar, sairíamos com ela para passeios, até que na quarta visita ao abrigo, ela jé mandou direto: 'Quando vocês vêm me buscar para morar na sua casa?'", conta Douglas.

A adoção definitiva de Thaila saiu esse ano. O casal não podia estar mais feliz por ter conseguido construir a família que sempre sonhou.

"Participamos, depois, de mais um Missão Diversão, como ajudantes e não mais pretendentes, e sempre víamos o brilho nos olhos da Marcella, a paixão por ver os pequenos felizes, e uma mega explosão de amor quando algum casal entrava com pedido de guarda junto ao fórum", acrescenta Douglas.

A administradora Clarice Janine Londero, e o marido, Fernando Arndt, também têm um carinho especial pelo projeto. Eles estavam há mais de dois anos na fila de adoção quando o juizado os convidou, juntamente com outros casais, para participar do Missão Diversão.

"O juizado chamou os habilitados para a adoção e falou sobre o projeto. Nós éramos habilitados para crianças mais novas, até cinco anos. A maioria dos pais eram habilitados para crianças mais novas", conta Clarice.

"Participamos desde o primeiro evento. Aí, o Tribunal havia criado aquele Aplicativo Adoção, e fomos fazer um trabalho voluntário lá, ajudar com os vídeos. Foi quando conhecemos duas meninas, mas tínhamos que respeitar a fila. No terceiro evento do Missão Diversão, essas meninas foram, conhecemos mais elas, brincamos. Manifestamos então o pedido para adotá-las".

O evento ocorreu em março de 2018. Dois meses depois, Clarice e Fernando estavam com a guarda provisória das irmãs Karoline e Kauana, que tinham 10 e 7 anos na época.

"Muito gratificante poder rever essa ideia de que as crianças precisam ser pequenas. Isso não é uma verdade única. Para algumas pessoas, isso é uma verdade e tem que respeitar. Mas é possível abrir esse leque", conta.

"O evento é muito bom por isso, o quanto a gente vê que essas crianças precisam de uma família, um núcleo segurança, de cuidados. A Marcella é uma menina incrível e merece muito viajar para divulgar esse projeto dela. Se ele puder ser ampliado, vai trazer muitos frutos", diz Clarice.
"Há muitas crianças disponíveis para adoção acima dos 7 anos. Isso que é o mais difícil. As vezes os casos demoram da Justiça, e as crianças vão crescendo. As nossas meninas entraram no abrigo com 4 e 7 anos, ficaram 4 anos abrigadas. Muito tempo que se perde de uma vida, de uma educação", conclui a mãe.

 

Com informações: g1.globo.com

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